1. Como você entrou no mundo da dublagem? Qual foi o seu primeiro trabalho dublando, seu primeiro personagem?
A primeira vez que ouvi sobre a dublagem como profissão e parte importante das mídias de entretenimento de que sempre gostei foi em 2005. Uma das atrações do Anime Friends daquele ano era uma entrevista com alguns dubladores e nessa entrevista foi oferecida uma vaga num curso de dublagem para o primeiro que ligasse, no dia seguinte, e a reclamasse. Então antes mesmo do estúdio abrir eu liguei e deixei um recado. Depois me retornaram e deu tudo certo.
2. Como você entrou no mundo de Yashahime? Você tinha idéia de como seria o anime ou só foi descobrindo depois?
Da forma habitual que os dubladores chegam aos materiais. O estúdio marcou uma escala comigo e na hora de gravar tive uma surpresa terrivelmente agradável. Não sabia nada sobre Yashahime e pouquíssimo sobre Inuyasha, mas esperava o clássico de um anime de batalhas... Umas luta mais braba, transformações, poder da amizade, essas coisas... Então na prática foi uma descoberta gradual.
3. O que foi mais fácil e difícil no processo de dar voz ao seu personagem? Você sentiu alguma dificuldade nisso?
Tecnicamente o Riku foi bastante fácil... Sem gritos, sem grandes explosões emotivas... Até nos momentos em que ele revela um pouco de suas intenções "por baixo da máscara" ele tá meio tranquilão.
Quanto à interpretação esse fato é justamente a dificuldade. Já que ele varia muito pouco (o que me permite pouca exploração interpretativa), como fazer as variações serem realmente diferentes entre si? Mas acho que junto da direção e da técnica eu encontrei um caminho.
4. Em que você se identifica e diverge do personagem ao qual dá voz?
O Riku tem como ponto central uma das grandes dificuldades da vida humana, que é entender os próprios sentimentos e descobrir o que fazer com isso. Desde a época mostrada em seu flashback até a batalha contra Kirinmaru no último episódio ele progride nessa questão e isso reflete em seu próprio modo de ser e agir. Ele é um personagem, claro, e por isso mesmo não tem como abarcar a complexidade real desse assunto se olharmos sob os parâmetros da vida real. Ele é um recorte de um assunto vasto e abstrato. Mas justamente por ser um recorte é possível olhar para esse assunto de forma objetiva. É possível entender, de certa forma, como a questão central dele influencia nas escolhas que faz.
Então, no fim, eu me assemelho ao Riku no mesmo ponto em que todos os seres humanos (se vc olhar bem de perto) se assemelham... Eu não entendo totalmente tudo o que sinto e preciso lidar com isso. Agora quanto as diferenças... Ah... Todo o resto, eu acho... Tirando a voz...
5. Certamente você já acumula vários personagens ao longo dos anos, mas nos diga apenas alguns dos que mais marcaram sua carreira e que são mais lembrados pelos seus fãs.
"Vários" é uma palavra boa pra esse caso, por que numericamente falando (e contando cada coadjuvantezinho) é bastante mesmo, mas sob vários outros aspectos é bem pouco. Por sorte tive o prazer de nesse tempo curto esbarrar com materiais muito bons e divertidos de trabalhar. Vou listar os que eu mais gosto ou gostei de fazer. Não necessariamente são os melhores ou mais famosos e não estão em ordem de importância:
- Akira em Devilman Crybaby
- Kai em Piano no Mori
- Klauss em Hotel Transilvânia - A Série
- Derek Cho em Mayhem (interpretado por Steven Yeun)
- O homem lagarto azul, do trio de fãs do Gabiru em Tensei Shitara Slime Datta Ken
- Riku em Hanyo no Yashahime
- Glootie em Rick and Morty
- Lui em Beyblade Burst e nos que vieram depois
Pois é, tem bastante anime e com certeza tem mais coisa... Mas esses são os que eu lembrei agora de cabeça. Das vezes que fui procurado por gente que é fã de algum trabalho que participei, sempre foi pelo Riku, pelo Lui ou pelo Akira.
6. Você tem alguma curiosidade acerca da dublagem de Yashahime que possa nos contar?
Nossa, na verdade não. Yashahime foi gravado todinho na pandemia, então todas as escalas foram remotas, o que significa que não existiu aquele tempinho que vc fica ali no estúdio só conversando e sabendo dos trabalhos. Logo, as coisas divertidas ou diferentes que possam ter acontecido não chegaram até mim, por que o comum era entrar na call, gravar e sair, com pouco tempo de conversa por causa dos horários da agenda.
Sad but true, gente...
7. Você já foi reconhecida na rua por causa da sua voz?
Não, graças aos deuses.
8. Existe alguma diferença entre dublar filmes, séries americanas e animes por exemplo?
Existe sim, mas as diferenças são mais claras entre live action e animação do que entre as divisões desses dois tipos. Filmes e séries, por exemplo, apresentam basicamente as mesmas dificuldades pois a natureza cinematográfica do material é muito parecida. Então (muito, muito, muito resumidamente mesmo) dá pra dizer que a dificuldade vem do encaixe do Português em cima do idioma original, do tanto que o texto precisa ser adaptado e das características do seu personagem. Já os desenhos, orientais ou não, costumam ser mais desafiadores na intensidade e nuances da interpretação do que qualquer outra coisa (e aqui também é um jeito BEM por cima de explicar).
9. Você tem alguma dica para quem deseja trabalhar com dublagem aqui no Brasil?
Estude! Interpretação tem teoria e técnica. Faça teatro pra aprendê-las e para desenvolver várias outras habilidades paralelas que te ajudam também. E faça um curso de dublagem pra ter algum domínio da prática antes de tentar a sorte em qualquer lugar.
10. Como você se sente em relação ao assédio dos fãs?
Acho que nunca fui assediado por fãs hahahaha Sempre foram conversas breves, mesmo as mais elogiosas... Mas acho que não gostaria de ser, não... Sejam de boa, pessoas. Obrigado.


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